sábado, 5 de maio de 2012

Dia do Mali

Quando um tipo em Koulikoro, uma vila a nordeste de Bamako (capital do Mali), que nunca foi a Portugal e nem sabe bem onde tal país fica, ao falar-se da liga portuguesa de futebol, nos começou por dizer o nome Trofense, sabíamos que estávamos a falar com um especialista.

No momento em que nos falou do Trofense ficámos com a sensação que a seguir nos podia dizer uma frase do género: lembram-se dos bonés que o José Mota utilizava nos "flash interviews" quando treinava o Paços de Ferreira?

Sem desprestígio para o Trofense, estão a imaginar o que não sabem as pessoas em Koulikoro sobre o Benfica, não estão? Pois, exactamente: muitos dos comentadores de futebol da nossa praça sentir-se-iam humilhados neste lugar.

Koulikoro é um pequeno universo indeciso: da terra vermelha brotam gigantescas termiteiras; brota, ao fundo, na paisagem, um monte súbito, quase geométrico, ladeado de penhascos. Noutro ponto, junto ao rio, onde se organiza o mítico mercado da aldeia, cresce uma vegetação verde tão fulgurante e que contrasta tanto com o vermelho da terra que parecemos ter penetrado num pequeno reino psicadélico.

É neste estado de incerteza sobre a realidade que vamos travando conhecimento com esta gente muito negra, alta e bela que aqui vive: caçadores de arma em punho, pescadores, alfaiates, fabricadores de tijolos, extractores de areia e feiticeiros.

Feiticeiros? Indagamos um pouco por todo o lado, mas rapidamente aprendemos que ainda não estamos em lugar de “voodoo”. Ri-te enquanto podes Pinto da Costa, mais uns quilómetros para Sul e essa ciática vai deixar de te dar tréguas.

O mundo está todo ligado – é uma aprendizagem que se reforça sempre em viagem e que esperamos conseguir transmitir quando esta viagem semi-imaginária der lugar à real: o momento alto do Trofense pode coincidir com o momento mais baixo do Pinto da Costa numa proverbial aldeia africana.

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