terça-feira, 22 de maio de 2012





Em toda a África, a população vinda do interior das florestas para as cidades, durante o período colonial, deparou-se subitamente com a civilização da técnica, da velocidade e da máquina. Foi assim que se formou, em 1917, a seita dos Haouka, filmada pelo cineasta francês Jean Rouch, na década de sessenta.

No seu ritual principal, os Houaka – homens e trabalhadores comuns de Accra: um plantador de cacau, um trabalhador da companhia das águas, um vendedor ambulante – são possuídos por espíritos de homens brancos.

Os pés começam a tremer, depois as pernas, o tronco, os braços, e finalmente a cabeça. Os olhos deste tropel de homens parecem querer saltar das órbitas. As bocas espumam. O que antes eram pessoas em tudo normais, transformaram-se. Em vez deles, temos agora um general, uma mulher de um famoso tenente francês, um governador, um maquinista, um motorista de camião, etc.

No final do ritual estes homens degolam e comem um cão, um animal interdito. Com esta demonstração, provam que não são homens normais: que são mais fortes e poderosos que os outros.

Há décadas que os antropólogos e outros estudiosos tentam desvendar os segredos do Haouka. Devemos ler no Haouka os sinais de um complexo de inferioridade em relação ao homem branco? Devemos ler no Haouka, pelo contrário, a capacidade de interiorizar as virtudes do “homem branco” tornando-as locais, como se tivessem sido absorvidas?

Não sabemos. O que sabemos é que a ofensiva colonial, que assolou o continente africano durante 500 anos, deixou um enorme legado de complexas relações que todos – europeus e africanos – têm dificuldade em compreender. O “Benfica em África”, longe de pretender apenas debruçar-se sobre o futebol, pretende abrir mais uma janela de contemplação desta mistura rica, que talvez mereça mais
oportunidades do que as que tem tido.

Sem comentários:

Publicar um comentário