quarta-feira, 2 de maio de 2012







A essência deste projecto é mostrar o quão diversa é a África contemporânea, ir contra aquelas imagens (como a de baixo, que representa um casal diola na era colonial) que todos temos tendência a construir à partida sobre lugares que conhecemos menos bem e que, nem sempre, são as verdadeiras.

E se vos pedissem para dizerem que tipo de pessoas acham que é possível encontrar hoje numa aldeia no Sul do Senegal, na região da Casamansa? O que responderiam?

Nioumoune é uma aldeia proverbial africana de etnia diola: é constituída por vários aglomerados de casas de adobe, ainda cobertas de palha, do meio das quais emergem ancestrais e colossais embondeiros, que circundam um enorme arrozal que as abastece.

Em Nioumoune, encontramos Olivier, um padre cristão que todos os dias oficia a sua missa. Encontramos também Moussa, um imã muçulmano que cinco vezes ao dia convoca os fiéis muçulmanos para a oração a Allah. Mas encontramos também Anouk, uma feiticeira animista que controla um fetiche: uma árvore, normalmente rodeada de uma cerca de paus ou de pedras ou de outros marcos distintivos e protectores, através da qual é possível comunicar com espíritos que, em grande medida, regulam toda a vida social da aldeia.

Em Nioumoune podemos conhecer também Jean-Pierre. À semelhança de muitos jovens senegaleses, o seu único sonho é ir para a Europa. Também como muitos deles, um dia trocará todo o dinheiro que acumulará em anos de trabalho por um lugar numa das pirogas que partem da costa senegalesa Atlântico fora, em direcção às Canárias, arriscando a sua vida por um futuro que imagina melhor. Mas em Nioumoune também é possível cumprimentar Juan, um espanhol que trocou todos os seus bens e a sua vida anterior numa capital europeia para vir viver para esta região, dedicando-se à agricultura. Adivinhem o que é que ele diz? Quer mais tempo para si e para os outros: também ele trocou tudo por um futuro que imaginou melhor.

O evidente nem sempre o é. A história que ouvimos num dia desmente frequentemente a história que ouvimos noutro: esta é uma lição que se aprende rapidamente no Senegal.

Em Nioumoune, como em todo o Senegal, o principal desporto é a luta livre senegalesa, uma espécie de luta greco-romana na areia. Por outro lado, muita gente prefere o futebol. Mas claro que este é um daqueles lugares em que é impossível encontrar um benfiquista, certo? Errado. Malick Cissé, um rapaz de origem maliano que conhecemos nesta estadia é benfiquista e tem um jogador preferido para qual sonha endereçar uma carta. Aimar? Nuno Gomes? Cardozo? Nada disso: Petit. Exactamente, em Nioumoune encontramos talvez a única pessoa no mundo que tem como jogador preferido o antigo 6 do Benfica. Não sabemos se o que Malick ganhou afeição àquela inconfundível penca do Petit ou à matreirice inconfundível com que dá pau nos adversários sem que o árbitro veja. O que sabemos é que em termos de jogadores preferidos, como em tudo o resto, África não é um continente para resumir em duas ou três palavras

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