sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dia do Togo





Deparamo-nos constantemente com estatísticas, números e percentagens que, de uma forma quantitativa, tentam qualificar países, culturas e pessoas. Quem de nós não carrega na memória um número, um ranking ou uma classificação?
Esta semana navegando pela internet cruzamo-nos com uma estatística incrível: o Togo é o país mais infeliz do mundo.

Deste indicador conclui-se que, em tão miserável pátria, tudo de mau se encontra. Esta podia ser a novidade que poderíamos carregar no dia de hoje não fosse a nossa persistência em teimar que as coisas não são preto no branco, e, afinal, que o jornalismo mainstream que todos consumimos diariamente quer que pensemos como ele.

Taxa de suicídio: o Togo figura nos países com o índice mais baixo em todo o mundo. Para além de infelizes, os Togoleses devem ser incrivelmente masoquistas.

Taxa de ocupação de cadeias: o Togo é um dos países com o índice mais baixo no planeta. Terá o Togo uma daquelas polícias dos romances de ficção científica que consegue prever o futuro e, portanto, evitar crimes?

Taxa da pegada ecológica de consumo: o Togo figura nos países com o índice mais baixo. Coitados dos togoleses: devem ser tão infelizes porque consomem e poluem pouco.

Taxa de consumo de carne: o Togo inclui-se nos países com menos consumo. Será possível ser-se feliz sem um bom bitoque por dia? Talvez os alemães, que têm a maior percentagem de vegetarianos num país desenvolvido do mundo, também sejam uns tristonhos. Ou então os togoleses estão mesmo cansados do facto de serem banhados pelo Oceano Atlântico e estarem próximos da linha do equador. Uma dieta de fruta que cai das árvores e de peixe que salta do mar para as redes às tantas também aborrece.

Densidade populacional. O Togo está entre os países com menos pessoas por quilómetro quadrado. São infelizes porque têm muito espaço para viver. O que é mesmo bom é viver no centro de Tóquio ou em Manhattan.

Política de alistamento militar: Togo é dos países do mundo com menos militares em termos de proporção populacional. Então mas os togoleses andam deprimidos e nem sentem vontade de aviar nos países mais ricos com os quais fazem fronteira?

Senhoras e senhores: wellcome to Togo. O país mais infeliz do mundo.

Por vezes, as informações não são o que aparentam e neste projecto pretendemos produzir informação aprofundada, de forma a não reduzirmos a realidade africana a um retrato simplista e, porque não dizê-lo, estúpido.

As pessoas, culturas e países são mais do que números: são sensações e emoções que não são facilmente encaixáveis em gavetas ou categorias. Talvez dando também alguma voz aos 7 milhões de benfiquistas em África, possamos mais facilmente mostrar o que eles são: misturas fascinantes sensações e emoções, seres bem mais vastos do que os algoritmos dos jornais.

terça-feira, 22 de maio de 2012





Em toda a África, a população vinda do interior das florestas para as cidades, durante o período colonial, deparou-se subitamente com a civilização da técnica, da velocidade e da máquina. Foi assim que se formou, em 1917, a seita dos Haouka, filmada pelo cineasta francês Jean Rouch, na década de sessenta.

No seu ritual principal, os Houaka – homens e trabalhadores comuns de Accra: um plantador de cacau, um trabalhador da companhia das águas, um vendedor ambulante – são possuídos por espíritos de homens brancos.

Os pés começam a tremer, depois as pernas, o tronco, os braços, e finalmente a cabeça. Os olhos deste tropel de homens parecem querer saltar das órbitas. As bocas espumam. O que antes eram pessoas em tudo normais, transformaram-se. Em vez deles, temos agora um general, uma mulher de um famoso tenente francês, um governador, um maquinista, um motorista de camião, etc.

No final do ritual estes homens degolam e comem um cão, um animal interdito. Com esta demonstração, provam que não são homens normais: que são mais fortes e poderosos que os outros.

Há décadas que os antropólogos e outros estudiosos tentam desvendar os segredos do Haouka. Devemos ler no Haouka os sinais de um complexo de inferioridade em relação ao homem branco? Devemos ler no Haouka, pelo contrário, a capacidade de interiorizar as virtudes do “homem branco” tornando-as locais, como se tivessem sido absorvidas?

Não sabemos. O que sabemos é que a ofensiva colonial, que assolou o continente africano durante 500 anos, deixou um enorme legado de complexas relações que todos – europeus e africanos – têm dificuldade em compreender. O “Benfica em África”, longe de pretender apenas debruçar-se sobre o futebol, pretende abrir mais uma janela de contemplação desta mistura rica, que talvez mereça mais
oportunidades do que as que tem tido.

sábado, 19 de maio de 2012

Dia da Costa do Marfim





Há um tipo numa mota indiana, a atravessar um enorme charco por cima de umas tábuas, ali colocadas para o efeito, que cai à água. Isto redobra a atenção que temos que ter à estrada.

Mal ultrapassamos o charco, penetramos numa aldeia onde um pastor vedou completamente a estrada com uma muralha de rabos de vacas. Paramos e somos assaltados por um enxame de mulheres a vender laranjas.

Quando ultrapassamos a aldeia, passamos numa zona onde centenas de crianças jogam à bola, em campos que se sucedem uns aos outros, em ambos os lados da estrada. Outras crianças correm ao nosso lado, empurrando e guiando pneus com arames.
Por cima de nós, entre as copas das árvores que cerram o céu, saltam vultos, provavelmente macacos.

O que é que isto tem de especial? Nada: exceptuando alguns detalhes, poderia ser em qualquer país do mundo. Um dos objectivos desta viagem será o de revelar gestos simples, acontecimentos normais do quotidiano, enfim, todas essas pequenas coisas que tornam os homens tão próximos uns dos outros, que lhes permitem reconhecer-se no comportamento de um estrangeiro ou numa paisagem longínqua.

Porquê? Numa altura em que as fobias das migrações aumentam e a extrema-direita sobe em toda a Europa nas intenções de voto, é necessário que todos nós façamos um esforço para nos relembrarmos do essencial: que somos todos iguais.

A tradição democrática e plural do Benfica sempre esteve em harmonia com a defesa da diversidade. O Benfica nunca foi um clube de uma região, de uma classe social ou de uma raça. A sua maior estrela é, afinal de contas, africana. É também por estas razões que achamos que este projecto faz sentido.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dia da Serra Leoa

Um país hexagonal, em forma de diamante, um país que cintila.

Árvores de algodão, hipopótamos pigmeus e jovens rappers que cantam pelo amor e pela paz. 

Pântanos de mangais, florestas perpetuamente verdes, relâmpagos como cataratas de fogo, histórias de esperança que emergem de histórias de atrocidades, praias espectaculares, uma terra verdejante.

Ouro, urânio, diamantes, madeira, ferro.

Os “mende", descendentes de caçadores, os “temne”, de reputação bélica, os “limb”a, povos das montanhas, os sherbro, pescadores míticos, os fula, comerciantes hábeis e criadores de gado.

Os “porroh”, que são sociedades secretas das quais se diz serem uma morte, uma ressurreição e uma incorporação numa assembleia de almas.

O homem de fato que vai para o trabalho a ouvir músicas como “Your Pussy Clean”, a mistura de hiphop, calypso, dancehall e merengue, o vinho de palma, as orquídeas raras e exóticas que já no século XIX atraíam os chamados mártires da orquideologia, o chimpanzé ocidental, os elefantes da floresta.

O país na cauda do índex de desenvolvimento das Nações Unidas, o país do qual os ouvidos do planeta só ouviram os horrores da guerra, é um país cujas abundantes pedras preciosas parecem ter transpirado do solo e cintilar agora, para onde quer que se olhe.

Um país que cintila, um país em forma de diamante.

domingo, 6 de maio de 2012

Dia da Guiné-Conacri

Havia um episódio dos “Ficheiros Secretos” em que, entrados no perímetro de uma área aparentemente banal de um mato, os personagens morriam subitamente. Descobre-se, apenas no final do episódio, que essa área de terreno se dilata e se contrai subtil mas periodicamente. Aquilo a que assistimos é, na verdade, ao vaivém pulmonar de um organismo vivo: as personagens morriam porque eram consumidas, comidas.

Salvaguardando a devida distância em relação aos “Ficheiros Secretos” e ao seu lado de terror, o Fouta Djallon, no Norte da Guiné-Conacri, parece ser, analogamente, uma colossal massa de terra que vive. A vegetação luxuriante induz aquela sensação arrepiante de se estar a pisar uma espécie de chão original e primitivo, no qual não se é completamente bem-vindo, como se essa terra nos vigiasse.

A humidade que tudo besunta, os enxames insectos e o ar empapado de rumores de animais esbatem, aqui, as diferenças entre matéria inanimada e matéria morta.

Este maciço montanhoso, também conhecido como o Castelo de Água da África Ocidental, rodeado de penhascos e escarpas, é daqueles lugares onde o mundo exterior termina, cessa, como se esbarrasse nas suas muralhas. Mas isso não quer dizer que se dê entrada noutro lugar. Dá-se aqui entrada numa outra coisa, inominável.

Em Setembro próximo, esperemos poder estar a escrever-vos e enviar-vos vídeos e fotografias dos filhos destas montanhas.

sábado, 5 de maio de 2012

Dia do Mali

Quando um tipo em Koulikoro, uma vila a nordeste de Bamako (capital do Mali), que nunca foi a Portugal e nem sabe bem onde tal país fica, ao falar-se da liga portuguesa de futebol, nos começou por dizer o nome Trofense, sabíamos que estávamos a falar com um especialista.

No momento em que nos falou do Trofense ficámos com a sensação que a seguir nos podia dizer uma frase do género: lembram-se dos bonés que o José Mota utilizava nos "flash interviews" quando treinava o Paços de Ferreira?

Sem desprestígio para o Trofense, estão a imaginar o que não sabem as pessoas em Koulikoro sobre o Benfica, não estão? Pois, exactamente: muitos dos comentadores de futebol da nossa praça sentir-se-iam humilhados neste lugar.

Koulikoro é um pequeno universo indeciso: da terra vermelha brotam gigantescas termiteiras; brota, ao fundo, na paisagem, um monte súbito, quase geométrico, ladeado de penhascos. Noutro ponto, junto ao rio, onde se organiza o mítico mercado da aldeia, cresce uma vegetação verde tão fulgurante e que contrasta tanto com o vermelho da terra que parecemos ter penetrado num pequeno reino psicadélico.

É neste estado de incerteza sobre a realidade que vamos travando conhecimento com esta gente muito negra, alta e bela que aqui vive: caçadores de arma em punho, pescadores, alfaiates, fabricadores de tijolos, extractores de areia e feiticeiros.

Feiticeiros? Indagamos um pouco por todo o lado, mas rapidamente aprendemos que ainda não estamos em lugar de “voodoo”. Ri-te enquanto podes Pinto da Costa, mais uns quilómetros para Sul e essa ciática vai deixar de te dar tréguas.

O mundo está todo ligado – é uma aprendizagem que se reforça sempre em viagem e que esperamos conseguir transmitir quando esta viagem semi-imaginária der lugar à real: o momento alto do Trofense pode coincidir com o momento mais baixo do Pinto da Costa numa proverbial aldeia africana.

quinta-feira, 3 de maio de 2012


Banjul, a capital da Gâmbia, é uma cidade de cores, sons e emoções à flor-da-pele. De vez em quando, somos interceptados por um jipe em cima do qual dançam quatro rastamans que gritam “This is second Jamaica” (esta é a segunda Jamaica!).
Têm presente aqueles panfletos que se distribuem no metro de Arroios ou do Cais do Sodré anunciando curandeiros africanos que curam tudo, dos joanetes ao desemprego? Aqui, estes feiticeiros estão em cada esquina: chamam-nos para dentro de suas casas para experimentarmos os seus gri-gris (amuletos) e as suas bolas de ervas mágicas – “esta retira-te 20% dos teus problemas”, grita um!
Há gente por todo lado, e que gente! Vivem aqui etnias africanas muito altas. O Jardel e o Luisão aqui sentir-se-iam uns meias-lecas. Nas ruas, é preciso ziguezaguear o corpo para escapar aos rabos sólidos de umas mulheres de um metro e noventa.
Mas, sobretudo, o que parece distinguir os gambianos de outros povos circundantes é a indiscritível propensão que parecem ter para conversar! Para conversar? Sim, exactamente. Aqui, sair à rua para ir a uma mercearia pode levar uma manhã inteira por causa das conversas que se entabulam entretanto. E o problema é que são magnéticas: ou seja, pouco depois de se pararmos na rua para falar com alguém que nos interpela, logo outro se junta, e depois outro e depois outro, até que nos arriscamos a que toda a cidade fique parada à nossa volta numa animada cavaqueira: é que como os gambianos gostam tanto de conversar, conhecem-se todos!
A Gâmbia deveria ser o país oficial do bate-papo. Os psicólogos na europa deveriam prescrever férias na Gâmbia para os solitários e os anti-sociais. O Rui Santos aqui é apenas um tipo normal.
Preparem-se, tirem dias de férias: daqui sairão com certeza uns maravilhosos podcasts de várias horas a falarmos do Benfica.

quarta-feira, 2 de maio de 2012







A essência deste projecto é mostrar o quão diversa é a África contemporânea, ir contra aquelas imagens (como a de baixo, que representa um casal diola na era colonial) que todos temos tendência a construir à partida sobre lugares que conhecemos menos bem e que, nem sempre, são as verdadeiras.

E se vos pedissem para dizerem que tipo de pessoas acham que é possível encontrar hoje numa aldeia no Sul do Senegal, na região da Casamansa? O que responderiam?

Nioumoune é uma aldeia proverbial africana de etnia diola: é constituída por vários aglomerados de casas de adobe, ainda cobertas de palha, do meio das quais emergem ancestrais e colossais embondeiros, que circundam um enorme arrozal que as abastece.

Em Nioumoune, encontramos Olivier, um padre cristão que todos os dias oficia a sua missa. Encontramos também Moussa, um imã muçulmano que cinco vezes ao dia convoca os fiéis muçulmanos para a oração a Allah. Mas encontramos também Anouk, uma feiticeira animista que controla um fetiche: uma árvore, normalmente rodeada de uma cerca de paus ou de pedras ou de outros marcos distintivos e protectores, através da qual é possível comunicar com espíritos que, em grande medida, regulam toda a vida social da aldeia.

Em Nioumoune podemos conhecer também Jean-Pierre. À semelhança de muitos jovens senegaleses, o seu único sonho é ir para a Europa. Também como muitos deles, um dia trocará todo o dinheiro que acumulará em anos de trabalho por um lugar numa das pirogas que partem da costa senegalesa Atlântico fora, em direcção às Canárias, arriscando a sua vida por um futuro que imagina melhor. Mas em Nioumoune também é possível cumprimentar Juan, um espanhol que trocou todos os seus bens e a sua vida anterior numa capital europeia para vir viver para esta região, dedicando-se à agricultura. Adivinhem o que é que ele diz? Quer mais tempo para si e para os outros: também ele trocou tudo por um futuro que imaginou melhor.

O evidente nem sempre o é. A história que ouvimos num dia desmente frequentemente a história que ouvimos noutro: esta é uma lição que se aprende rapidamente no Senegal.

Em Nioumoune, como em todo o Senegal, o principal desporto é a luta livre senegalesa, uma espécie de luta greco-romana na areia. Por outro lado, muita gente prefere o futebol. Mas claro que este é um daqueles lugares em que é impossível encontrar um benfiquista, certo? Errado. Malick Cissé, um rapaz de origem maliano que conhecemos nesta estadia é benfiquista e tem um jogador preferido para qual sonha endereçar uma carta. Aimar? Nuno Gomes? Cardozo? Nada disso: Petit. Exactamente, em Nioumoune encontramos talvez a única pessoa no mundo que tem como jogador preferido o antigo 6 do Benfica. Não sabemos se o que Malick ganhou afeição àquela inconfundível penca do Petit ou à matreirice inconfundível com que dá pau nos adversários sem que o árbitro veja. O que sabemos é que em termos de jogadores preferidos, como em tudo o resto, África não é um continente para resumir em duas ou três palavras

terça-feira, 1 de maio de 2012

Dia da Mauritânia






A imagem de um enorme navio decrépito encalhado desafia a mente: é uma espécie de morte maior que as outras, mais comovente. É como uma baleia que dá à costa: como é que algo tão grande pode perecer?

Nas imediações da cidade de Nouadhibou, no Norte da Mauritânia, fica um dos maiores cemitérios de barcos do mundo, encalhados na estreita linha de silhueta do continente africano onde se enfrentam - onde se olham cara a cara - duas das maiores massas de matéria do planeta: o Atlântico e o Sara. Perecerão também elas, como os navios e as baleias?

Se esta imagem vos arrepia, sugerimos-vos que escrevam “nouadhibou ship graveyard” no Google: há outras. Também vos sugerimos que partilhem estas linhas e esta página, para que em breve possamos ir a Nouadhibou buscar mais imagens para vocês.

Nouadhibou é uma cidade pequena que põe grandes questões: até o Alberto Caeiro que há em todos nós tem dificuldades em aguentar a passagem do comboio mais longo do mundo, com cerca de três quilómetros de comprimento. Liga esta cidade a Zouerat, transportando ferro a partir das colossais minas que se encontram precisamente nessa cidade.

E que dizer da cratera meteorítica de Timimichat, com dois quilómetros de comprimento, circundada de penhascos com mais de cem metros de altura e misteriosamente alinhada com a crateras de Tenoumer e com a estrutura geológica concêntrica de Richat (esta com mais de 40 quilómetros de diâmetro, conhecida como o Olho do Sara) cuja origem é ainda um completo enigma? 

Uma coisa é certa: há, na Mauritânia, coisas quase tão impressionantes como o Estádio da Luz.

Depois de linhas ditadas por um país tão intenso, propomos para hoje que reflictam sobre o vosso benfiquismo: talvez os mauritanos possam compreender este sentimento, não é?

domingo, 29 de abril de 2012

Dia do Sahara Ocidental


Com um 1.9 habitantes por km2, uma das menores densidades populacionais do mundo, o Sahara Ocidental é um lugar em que a distância entre as povoações se conta, em quilómetros, com algarismos de três dígitos. Quem atravessa este país pela primeira vez, fica com a sensação de que o mesmo não é mais do que uma solitária e interminável estrada galgada por uma terra estéril que liga alguns entrepostos onde os homens se parecem ter refugiado da natureza agreste.
Nada mais errado: o deserto é venerado pelo povo saharawi. É aí que se encontram os pastores de camelos, é dele que se retiram os minérios que fazem a sua riqueza e é até no deserto – na costa – que se sedentarizaram comunidades de pescadores.
Um destes entrepostos é Boujdour, conhecido dos portugueses por Cabo Bojador, dobrado por Gil Eanes 1434. Não devido a este feito antigo, não será difícil encontrar em Boujdour, como noutros lugares desta terra lunar, sinais benfiquistas. Três dígitos é um número normal de canais de televisão neste lugar! Foi, aliás, numa cidade do Sahara Ocidental que uma vez nos fizeram uma descrição acurada do grafismo de ícones antigos da RTP 1!
Mas esta memória-zapping revela outro segredo sobre este lugar: o Sahara Ocidental está ocupado por Marrocos desde 75-76 e a sua população vive sob o jugo ditatorial deste país e uma vigilância apertada do seu quotidiano pela polícia e exército. A televisão e a internet tornaram-se assim meios fundamentais de preservação de uma ligação ao mundo exterior e de enfrentar o isolamento.
Em Agosto próximos contar-vos-emos muito mais sobre este povo desconhecido e fascinante.

Francisco Leitão escreveu sobre o Sahara Ocidental em http://pelo-caminho-estreito.blogspot.pt/2009/02/estrada.html

sábado, 28 de abril de 2012

Tentativa de retrato honesto de Marrocos (15 Fev 2009)

Deixamos (aqui falta um acento no "a", mas este teclado nao permite essa e outras sofisticacões) Marrocos para trás, e vem-me a vontade de fazer justiça a esta terra, pois que sobre ela se contam muitas patranhas.
Para ser sincero Marrocos parece um Bairro 6 de Maio gigante. Claro, há o deserto, as medinas labirínticas e os oásis, as aldeias de adobe nas montanhas e as caixas de aguarelas compostas pelas cores dos sacos de especiarias nos bazares, o Atlas, que é formidável com ou sem neve, e todas essas outras coisas que também se podem ler e ver nos Lonely Planet e nos guias Michelin. Mas, para se ser objectivo, para se escapar a um romantismo descabido, ao sensacionalismo generalizado das arábias, à ditadura imagética das palmeiras, dunas e camelos, há que dizê-lo: as cidades marroquinas são um nojo. Regra geral, parecem ter acabado de sair de uma guerra civil. O planeamento urbano é absolutamente inexistente, metade do país pareceu comprar de exteriores na mesma loja (está tudo tingido a salmão) dando aos lugares um tom monocórdico enjoativo e a outra metade ainda não juntou dinheiro para a tinta. Nos espaços entre esse crime urbanístico cor de salmão, prevalecem descampados medonhos e arenosos onde despontam ervas daninhas, vagueiam gatos e flutuam charcos sujos, degradam-se campos de futebol esquecidos, montanhas de entulho, lixo, e uma data de criançada entretida a fazer disto parque de diversões. No entanto – e é isto que é difícil corrigir num Lonely Planet mentiroso e impossível de explicar a um turista desiludido mas submetido à ditadura de sete dias de estada programada e apressada – Marrocos é um país fabuloso. Marrocos são tapetes gigantes a secar ao sol, são plantações de sacos de plástico, e é o nosso autocarro Relax a penetrar por isso tudo adentro, são parabólicas nas casas de colmo de famílias pobres de pastores, é um sorriso enorme, mas mesmo colossal, mas mesmo de desenho animado, com apenas três dentes, de um só lado, de um só maxilar, virados todos para o mesmo lado num ângulo impossível de uns 75 graus e disputando entre si a força magmática de algumas das cores do arco-íris- Marrocos é darmos por nós, ao fim de uns dias, a não sentirmos um mínimo de repugnância ou repulsa por estes sorrisos coloridos.
Mas Marrocos é sobretudo terra de artesões da hospitalidade. Marrocos é esta coisa verdadeiramente extraordinária de chegar a uma cidade, pedir uma indicação sobre a direcção do centro, e acabar convidado para jantar, e depois para passar a noite, e depois o dia seguinte, e depois para ficar mais algum tempo, e de repente nos vermos a ter que convencer dez amigos e vinte familiares diferentes (que entretanto conhecemos) que temos mesmo que nos ir embora, e já nem sabermos porque temos mesmo que o fazer.
Se isto nos tivesse sucedido uma vez, diria que há pessoas acolhedoras em Marrocos; duas vezes, diria que a hospitalidade do povo marroquino é das melhores do mundo; mas como aconteceu sempre, mas mesmo sempre, seja com famílias ricas ou famílias muito pobres, como de perdidos, nos vimos sempre subitamente sentados à mesa com as famílias de quem encontramos na rua, tratados com uma delicadeza inexplicável e com sorrisos que continuam a jorrar com o passar do tempo, vindos sabe-se lá de que fonte inesgotável, tenho que formular uma expressão paradoxal do tipo: Marrocos é dos lugares mais humanos que conheço.
Esqueçam os guias turísticos – ainda o não vi escrito em lado nenhum – Marrocos é sobretudo e apenas isto: é decidir atravessar a rua para comunicar com alguém que nos chama e despedirmo-nos com um grande abraço na madrugada seguinte. Se formos suficientemente parecidos com o vento, é decidir atravessar a rua para comunicar com alguém que nos chama, e acabarmos a viver casados, com filhos, a trocar camelos com esse tipo que entretanto se tornou nosso vizinho. Mesmo.
Peguem nos guias e metam lá dentro escombros, dentes sujos, parabólicas, e muitos sorrisos. São essas as coisas que lá não escreveram.




sexta-feira, 27 de abril de 2012

A partir de amanhã...


Dia 27 de Maio dar-se-á o lançamento do projecto Benfica em África. Até lá, durante os próximos 30 dias, dedicaremos um dia a cada país africano do nosso trajecto. Fiquem atentos! Amanhã é dia de Marrocos no Benfica em África!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Lendas benfiquistas


Estamos quase a partir para ir conhecer a história destas e de outras lendas africanas do Benfica.

Promo de 2012!


Este é o video com o qual ressuscitámos o projecto, em 2011, e que inaugurou a maratona em que agora vos acolhemos! Mantenham-se "ligados". Em breve, teremos muitas novidades!

A promo de 2008



Este foi o vídeo que inaugurou a divulgação mediática deste projecto, já há quatro anos atrás.