Deixamos (aqui falta um acento no
"a", mas este teclado nao permite essa e outras sofisticacões)
Marrocos para trás, e vem-me a vontade de fazer justiça a esta terra, pois que
sobre ela se contam muitas patranhas.
Para ser sincero Marrocos parece um Bairro 6 de Maio gigante. Claro, há o
deserto, as medinas labirínticas e os oásis, as aldeias de adobe nas montanhas e
as caixas de aguarelas compostas pelas cores dos sacos de especiarias nos
bazares, o Atlas, que é formidável com ou sem neve, e todas essas outras coisas
que também se podem ler e ver nos Lonely Planet e nos guias Michelin.
Mas, para se ser objectivo, para se escapar a um romantismo descabido, ao
sensacionalismo generalizado das arábias, à ditadura imagética das palmeiras,
dunas e camelos, há que dizê-lo: as cidades marroquinas são um nojo. Regra
geral, parecem ter acabado de sair de uma guerra civil. O planeamento urbano é
absolutamente inexistente, metade do país pareceu comprar de exteriores na
mesma loja (está tudo tingido a salmão) dando aos lugares um tom monocórdico
enjoativo e a outra metade ainda não juntou dinheiro para a tinta. Nos espaços
entre esse crime urbanístico cor de salmão, prevalecem descampados medonhos e
arenosos onde despontam ervas daninhas, vagueiam gatos e flutuam charcos sujos,
degradam-se campos de futebol esquecidos, montanhas de entulho, lixo, e uma
data de criançada entretida a fazer disto parque de diversões. No entanto – e é
isto que é difícil corrigir num Lonely Planet mentiroso e
impossível de explicar a um turista desiludido mas submetido à ditadura de sete
dias de estada programada e apressada – Marrocos é um país fabuloso. Marrocos
são tapetes gigantes a secar ao sol, são plantações de sacos de plástico, e é o
nosso autocarro Relax a penetrar por isso tudo adentro, são
parabólicas nas casas de colmo de famílias pobres de pastores, é um sorriso
enorme, mas mesmo colossal, mas mesmo de desenho animado, com apenas três
dentes, de um só lado, de um só maxilar, virados todos para o mesmo lado num
ângulo impossível de uns 75 graus e disputando entre si a força magmática de algumas
das cores do arco-íris- Marrocos é darmos por nós, ao fim de uns dias, a não
sentirmos um mínimo de repugnância ou repulsa por estes sorrisos coloridos.
Mas Marrocos é sobretudo terra de
artesões da hospitalidade. Marrocos é esta coisa verdadeiramente extraordinária
de chegar a uma cidade, pedir uma indicação sobre a direcção do centro, e
acabar convidado para jantar, e depois para passar a noite, e depois o dia
seguinte, e depois para ficar mais algum tempo, e de repente nos vermos a ter
que convencer dez amigos e vinte familiares diferentes (que entretanto
conhecemos) que temos mesmo que nos ir embora, e já nem sabermos porque temos
mesmo que o fazer.
Se isto nos tivesse sucedido uma vez, diria que há pessoas acolhedoras em
Marrocos; duas vezes, diria que a hospitalidade do povo marroquino é das
melhores do mundo; mas como aconteceu sempre, mas mesmo sempre, seja com
famílias ricas ou famílias muito pobres, como de perdidos, nos vimos sempre
subitamente sentados à mesa com as famílias de quem encontramos na rua,
tratados com uma delicadeza inexplicável e com sorrisos que continuam a jorrar
com o passar do tempo, vindos sabe-se lá de que fonte inesgotável, tenho que
formular uma expressão paradoxal do tipo: Marrocos é dos lugares mais humanos
que conheço.
Esqueçam os guias turísticos – ainda o não vi escrito em lado nenhum – Marrocos
é sobretudo e apenas isto: é decidir atravessar a rua para comunicar com alguém
que nos chama e despedirmo-nos com um grande abraço na madrugada seguinte. Se
formos suficientemente parecidos com o vento, é decidir atravessar a rua para
comunicar com alguém que nos chama, e acabarmos a viver casados, com filhos, a
trocar camelos com esse tipo que entretanto se tornou nosso vizinho. Mesmo.
Peguem nos guias e metam lá dentro
escombros, dentes sujos, parabólicas, e muitos sorrisos. São essas as coisas que
lá não escreveram.